Utentes de Esclerose Múltipla sobem ao palco com “A Paragem do 28”
Luzes, cãmara…Acção! O cenário do auditório do Centro Cultural da Malaposta encheu-se para receber “A Paragem do 28”. A peça foi encenada pela actriz Amélia Videira, com sonoridade de Cristina Benedita, mas o mérito do argumento é dos actores e actrizes. São pessoas portadoras de Esclerose Múltipla – utentes do Centro de Actividades Ocupacionais da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla – mas hoje (ontem) foram apenas almas cheias, de palavras, sons e cores.
Quem os vê em palco não imagina que por trás de cada sorriso e à vontade está o nervoso miudinho e incómodo de quem sobe ao palco pela primeira – e em alguns casos segunda – vez. A desenvoltura da voz e a alegria das palavras, ditas com ênfase, não faz adivinhar que sofrem de Esclerose Múltipla, uma doença do Sistema Nervoso Central. E isso parece mesmo não interessar, quando se trata de representar. “Fazer teatro é espectacular! A adrenalina de representar faz-me esquecer que tenho Esclerose Múltipla e estar nas nuvens, como hoje, é uma terapia”, diz Andrea Ticcan, de 37 anos. Nunca subiu a um palco, mas as irmãs já adivinhavam a queda para as artes. “Nunca fiz teatro, mas gosto de assistir. As minhas irmãs é que sempre disseram que tinha jeito!”, diz, bem-disposta.
O texto saiu da imaginação e das vivências diárias como utentes da SPEM. Dos risos e alegrias, das gargalhadas e convívio, das coisas boas e menos boas. Entre sorrisos e boa disposição, houve tempo para se recitar poesias de autores portugueses, falar da história local de Marvila (freguesia onde se localiza a SPEM), de histórias de amor – como a do Paulo e da Rita, que se conheceram na instituição e são hoje casados – e episódios cómicos que criam laços, todos os dias.
O jogo de luzes, acentuado pelos sons de vários instrumentos e cores, misturou-se em 50 minutos que deram a conhecer o quotidiano destas pessoas. A partida foi feita na paragem do 28, o autocarro que passa a poucos metros da SPEM, e que mesmo assim pode, muitas vezes, não os levar a lado nenhum. “Nem todos os autocarros levam cadeiras de rodas”, alertam os actores, à laia de aviso.
Assim, não há outro remédio do que recorrer às memórias do dia-a-dia, numa história onde as relações, a amizade e a boa disposição acabam em festa, em sintonia com os objectivos do projecto.
“Foi muito importante para todos eles verem as suas histórias, aquilo que vivem todos os dias, serem contadas e passadas cá para fora. Do ponto de vista da valorização pessoal e mesmo de entreajuda entre todos, utentes e técnicos, foi muito positivo”, afirma Carla Correia, terapeuta ocupacional, directora técnica do CAO.
O projecto, co-financiado pela segunda vez pelo Instituto Nacional de Reabilitação, resultou da pergunta “Artista, quem, eu?” e pretendeu desenvolver um trabalho de palco a partir das memórias individuais e colectivas dos utentes do CAO. E foi bem sucedido. Pelo menos é o que pensa Paulo Gomes, um dos utentes que, apesar de nervoso, confessa que a experiência foi positiva, não só em termos sociais como pessoais. “Ajudou-me a ser mais extrovertido. Quis experimentar, porque não tinha feito nada de teatro e queria saber até onde conseguia ir…O resultado foi muito bom, até em termos de convívio!”, adianta.
O mesmo pensa Margarida Neto, 58 anos. “Isto é óptimo! Dá uns nervos…Mas depois, quando apresentamos a peça, é muito bom, uma alegria. Gostava de repetir esta sensação todos os anos!”, diz.
Ao cair do pano, os aplausos, de pé, adivinharam o que ia em cada um dos rostos que assistiam. A repetir.
Ana Pires Fonseca| EAS
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