Serviço Social e Sustentabilidade Espiritual na Economia Social e Solidária

Cristina Duarte 

Especialista em Serviço Social; Doutoranda em Ciências Sociais, Especialidade Serviço Social com bolsa de investigação do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP-UL); Mestrado em Serviço Social.Gestão de Unidades Sociais e Bem Estar pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT); Formação Avançada em Gestão de Organizações do Terceiro Sector pela Universidade Católica Portuguesa; Coordenadora do Grupo Espiritualidade e Ciências Sociais (GECS); Investigadora do Centro de Pesquisa e Estudos Sociais (CPES) da ULHT; Membro do Grupo de Investigação em Serviço Social (GISS) do ISCSP-UL; Membro do Conselho Consultivo da UDIP Colinas-SCML; Membro da Comissão Mind-Brain College, da Universidade de Lisboa. Assistente Social com quinze anos de prática interventiva, entre outros, gestão de voluntariado, população em situação sem-abrigo, multiculturalidade, alfabetização e capacitação de adultos, vitimas do tráfico de seres humanos, redução do absentismo escolar em crianças e adolescentes.

 Quando falamos de economia social e solidária, pensamos em bens, serviços, cultura, estruturas, onde todos devem e podem ter acesso. Nem sempre é assim. Nem sempre a actividade económica tem por sujeitos todos os homens e todos os povos. Por isso, nascem organizações, associações, fundações que são parte da garantia do acesso a bens e serviços por cada cidadão e no qual o assistente social é um agente activo e mediador para que sejam cumpridos os Direitos Humanos, cartilha pela qual se rege a sua acção. O desenvolvimento integral e solidário é exercido por muitas destas entidades, espalhadas pelo mundo, que actuam no tecido social no sentido de servir o bem comum com bens e serviços úteis, a partir de necessidades muito concretas em sociedades tão diferenciadas na sua expressão cultural, geográfica, política.

Olhamos o mundo á nossa volta e o diagnóstico é muito real: os modos de produção e distribuição não são equitativos e daí serem os mais frágeis a viverem os efeitos daquilo que podemos designar de injustiça social. Olhamos o mundo à volta e o diagnóstico é ainda mais real: só um verdadeiro sentido de economia de comunhão pode tornar o mundo dos homens mais equilibrado com a consciência de que as instituições económicas estão ao serviço do homem.

Em que medida a economia solidária é garante dos direitos e deveres de cidadania? Pode a economia solidária por si só, na economia e na solidariedade, sustentar o cumprimento dos direitos universais? Os bens, ainda que legitimamente possuídos, mantêm sempre um destino universal? A globalização alimenta novas esperanças e proximidades ou cria novos distanciamentos?
Uma economia solidária requer a defesa dos direitos do homem e este dever engloba todos os direitos fundamentais, inclusive o direito de ser garantido os valores mais profundos que sustentam a vida e lhe dão sentido. E é aqui que a espiritualidade pode colaborar, particularmente aquela que envolvem os profissionais de relação de ajuda, muito em concreto os Assistentes Sociai. É fácil entendermos que muitas organizações no sistema económico mundial são regidas por princípios do sistema capitalista cuja sustentabilidade é assente no lucro. E apenas no lucro. Falamos de organizações cujo produto da acção não são pessoas mas bens e serviços, ainda que para os garantir sejam necessárias pessoas. Estas, cada vez mais trocadas por máquinas, robôs, que, parecem em (quase) tudo substituir o ser humano. Porém, carecem de alma.

Contudo, neste cenário, há uma pluralidade de organizações cuja lógica da acção se orienta para o bem maior: a pessoa humana. E é nesta lógica que surge um pilar fundamental no exercício da missão dessas organizações: a espiritualidade. Para entender a sustentabilidade espiritual talvez tenhamos que nos deter naquilo que define a espiritualidade e a espiritualidade organizacional.

No conjunto de uma organização, orientada para uma acção específica, gestão e espiritualidade são dois aliados do mesmo sistema. Como refere Afonso Murad: “articular gestão com espiritualidade é como andar de bicicleta. Quanto mais cedo a gente aprende mais fácil se torna. Mesmo assim, trata-se de uma busca constante de equilíbrio, que só se alcança quando em movimento. Devemos aprender a relacionar ambas sem que uma tome o lugar da outra. Uma organização cristã sem gestão, fracassa. E se lhe falta a Espiritualidade, esvazia-se. Perde sentido, mesmo que tenha sucesso.” Quando falamos de espiritualidade organizacional, o foco detém-se no conjunto de valores e princípios que estão na génese de qualquer instituição e norteiam a sua acção. Espiritualidade organizacional é aqui entendida por relações saudáveis, decisões saudáveis, onde cada um se torna co-responsável na construção da própria instituição e não um mero instrumento executor de tarefas e acções que integram quadros de valores numéricos pelos quais se mede o sucesso ou o impacto dessa organização. O segredo da espiritualidade organizacional está em descobrir o dom da própria instituição. O que a define com uma identidade muito concreta, com um código genético específico. E que tudo o que seja fugir a esse código genético, é fugir à génese, ou seja, aos fundamentos, aos pilares que estruturam essa organização. Ora, o segredo da espiritualidade organizacional está também, e de modo particular, em descobrir os dons de cada um, para lá do exercício profissional e elevar esses dons. Não é possível ter colaboradores, utentes, voluntários, gestores satisfeitos se não há este reconhecimento do seu ser pessoa naquilo que tem de mais essencial: o seu capital espiritual. E é este que gera a sustentabilidade espiritual.  O capital espiritual individual cria lucro organizacional na medida em que cada pessoa que intervém na acção da organização coloca inteiramente a render esse capital e este lhe é reconhecido por todos os outros. Assim, a sustentabilidade espiritual é entendida pela solidez da acção de uma instituição, no tempo e no espaço, como o somatório do capital espiritual de cada colaborador, voluntário, gestor, utente.

No plano da economia solidária, colocamos uma acção que une os empreendedores num projecto comum, com implicação de cada sujeito, num compromisso global. Isso é possível quando um grupo/empresa/organização conhecem, integram e vivem a dimensão nuclear dessa organização: o seu carisma. Entendemos aqui como carisma aquilo que distingue nuclearmente, uma instituição de outra e a torna referência no contexto global.
A economia solidária é tanto mais possível quanto mais é reconhecido e potenciado o capital espiritual. Falar de sustentabilidade espiritual na economia solidária é dizer que os resultados dos investimentos realizados no plano das relações, vivências sintonizadas e interiorizadas, da missão de uma instituição, resulta em lucro e num bem maior, quer para a própria instituição quer para os stakeholders.

 (Des) envolver a dimensão espiritual como fonte de uma vida integrada.

O desenvolvimento da dimensão espiritual – e muito particularmente do profissional que trabalha com pessoas em grande vulnerabilidade – é essencial para uma busca de sentido da sua missão. É essencial para a saúde individual e, consequentemente, organizacional.
A somar a um conjunto de instrumentos adquiridos na formação técnica, o profissional que desenvolve a dimensão espiritual e a envolve na relação de ajuda, consegue descentrar-se de si mesmo para entender um outro. O desenvolvimento da espiritualidade e o seu envolvimento na relação de ajuda, em nada se incompatibiliza com os instrumentos científicos, antes os complementam, “são cada vez mais as pessoas, principalmente as que têm responsabilidade no seu emprego, que chegaram à conclusão de que a espiritualidade pode ajudá-las a gerir o seu trabalho e a aceitar desafios sem se deixarem intimidar” (Grün, 2005:7).

Uma economia solidária assente numa sustentabilidade espiritual é uma economia que valoriza a riqueza maior que cada organização tem: cada pessoa. Não haverá uma sustentabilidade social, ambiental, financeira, sem esta consciência do capital espiritual que cada pessoa transporta. Uma organização vale, não só pelo seu capital financeiro, mais muito mais pelo seu capital espiritual.

Será a sustentabilidade espiritual uma resposta urgente para a saúde da economia mundial?
Será a economia solidária expressão de uma economia com espiritualidade?

 

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