Ser assistente social é uma profissão com futuro?

 Ser assistente social é uma profissão com futuro?

Coordenadora da licenciatura na Universidade Católica fala em 80% de empregabilidade do curso para contrariar ideia de que as ciências sociais não asseguram saídas profissionais aos alunos.

A licenciatura em Serviço Social começou a ser ministrada na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa (UCP) em 1996/97. Mas o que é que a diferencia dos outros cursos que existem no país? Ana Oliveira, actual coordenadora, lembra que “falar de Serviço Social na Católica é falar de direitos humanos, desenvolvimento e empreendedorismo”, para que esta seja uma profissão centrada em “projectos transformadores da sociedade”.

Ana Oliveira aponta o facto de 80% dos que acabam o curso encontrarem emprego de imediato como o melhor reconhecimento da formação que a licenciatura oferece e “a melhor prova de que esta é uma profissão com futuro e com saída”.

“Hoje, um assistente social pode ocupar qualquer área de mercado”, garante a responsável da licenciatura em Serviço Social da UCP. “Há quem se ria quando eu digo isto, mas na verdade o assistente social, tido como um promotor da justiça e do desenvolvimento social, pode trabalhar nas organizações sociais e instituições particulares de solidariedade social, onde estão cerca de 50% dos profissionais”, sublinha.

Ana Oliveira adianta que, neste momento, “já há quem esteja a trabalhar em diferentes empresas na área da responsabilidade social, consultoria, cooperação e desenvolvimento no exterior, e também na gestão de equipamentos e organizações sociais”.

“Há um grande reconhecimento, quer ao nível dos locais de estágio, alguns internacionais, quer ao nível do próprio mercado de trabalho. Dizem que, nas candidaturas, a nossa licenciatura fica à frente de outras”, avança.

Ana Oliveira diz que “face à realidade social, faz cada vez mais sentido pensar em profissões como esta, que são capazes de ter uma perspectiva não apenas de manutenção da realidade, mas de desenvolvimento desta realidade e de transformação”.

Exemplo disso foi o “Mais proximidade, Melhor Vida”, um projecto de estágio que acabou por se transformar em associação que já apoia mais de uma centena de idosos na baixa de Lisboa, ligado ao centro paroquial de S. Nicolau.

“Temos alunas que trabalham em empresas, umas mais na área da consultoria, outras mais ligadas à responsabilidade social. Já tivemos uma aluna a trabalhar no Ritz, temos alunas a trabalhar na Jerónimo Martins, áreas que não seriam imediatamente ligadas à nossa profissão. E temos muitos alunos ligados a ONG das Nações Unidas, na Unicef, a grandes organizações de carácter internacional”, enumera a responsável pela licenciatura.

O novo Plano de Estudos, que está a ser preparado para o próximo ano lectivo, terá “uma vertente muito maior ao nível do desenvolvimento e do empreendedorismo, mais virada para a cooperação, para o desenvolvimento e para a internacionalização”.

Ana Oliveira garante que, “a nível nacional” e até mesmo “a nível europeu”, a formação proporcionada pela licenciatura da UCO é de “referência”. “Somos, claramente, reconhecidos pela inovação, pela eficiência, pelo tipo de formação que oferecemos, tanto a nível da licenciatura como ao nível da formação pós-graduada”. A sua expectativa é que, como já acontece com Direito, Economia e Gestão, esta também venha a ser uma área para a UCP “dar cartas”.

Ana Oliveira diz-se uma “apaixonada” pela sua profissão. “Porque é que vale a pena ser assistente social? Porque vale a pena construir um mundo diferente, e ser bons profissionais na resposta aos problemas sociais e ao desenvolvimento humano”.

Um assistente social “é um actor político”
Luísa Dornelas, de 35 anos, formou-se em Serviço Social na UCP, em 2003, e está há 12 anos em Londres a trabalhar no Serviço de Protecção de Crianças em Risco de uma câmara. “Trabalho na prevenção precoce e na redução da pobreza. Ou seja, a ideia é chegar a estas famílias antes que haja maus tratos. Chegar lá antes das coisas se tornarem complicadas, quando as pessoas ainda querem ajuda, em vez de serem obrigadas de alguma maneira a aceitarem uma intervenção, isso faz toda a diferença”, conta à Renascença.

Em Londres, Luísa encontrou o que procurava: “Em tempos de crise, é muito importante ter a certeza de que não se deixa de investir nestes serviços e eu tive a sorte de conseguir trabalhar para uma câmara que percebe bem a importância da intervenção precoce e de continuar a investir nisto”.

Apesar de se dizer ateia e de esquerda, Luísa reconhece as mais valias que o curso da Católica lhe proporcionou, acabando por lhe abrir portas em Inglaterra. Revela que a formação dos portugueses nesta área é muito apreciada e reconhecida no Reino Unido: “Temos muito boa fama. Quem trabalha com assistentes sociais portugueses reconhece que nós temos uma formação mais rica”.

“Nós vimos muito melhor preparados para a intervenção social do que o curso de serviço social cá. Temos uma formação mais completa e, sobretudo, temos uma atitude diferente em relação ao que é serviço social, porque somos formados a pensar que um assistente social é um actor político. Somos actores de mudança social e isso é uma coisa que é diferente. Portanto, o que a Católica nos deu, e que eu julgo que era diferente, na altura, de outros cursos, e que é, definitivamente, diferente da formação aqui. É isto”.

O que faz uma assistente social numa consultora?
Menos óbvia foi a saída profissional que Mafalda Trigo da Roza encontrou. Com 26 anos, terminou a licenciatura em 2011 e está a trabalhar na Deloitte. Mas, afinal, o que é que faz uma assistente social numa empresa de consultoria e auditoria?

“Estou a trabalhar na área de responsabilidade social. Quando cheguei à Deloitte, eles tinham muita vontade de ter uma estrutura mais consistente, que apoiasse o sector social, e eu vim ajudar a montar essa área aqui na empresa. O meu desafio, no dia a dia, é fazer chegar esta vontade de ajudar as instituições e as pessoas, às pessoas e às instituições que precisam de ser ajudadas”, conta.

Mafalda considera que a licenciatura em Serviço Social, um mestrado em Gestão e as experiências de voluntariado que teve deram-lhe o conhecimento necessário para o cargo: “Cada vez mais, as empresas sentem que o papel delas na sociedade não é só o lucro, não interessa só o negócio, interessa o impacto e valor social que este negócio pode gerar. Também as pessoas sentem que têm que ter uma cidadania activa”.

Mafalda Trigo da Roza explica que recebe na empresa vários pedidos de apoio. Por isso, ao longo do ano, há vários projectos de voluntariado e financiamento.

A Deloitte tem cerca de dois mil funcionários, em Portugal e em Angola, e são cada vez mais os que querem envolver-se. Colaboram com o Banco Alimentar e com a Comunidade Vida e Paz, e, pelo Natal, têm sempre uma grande campanha de recolha de bens: “No último Natal, por exemplo, fizemos uma competição solidária dentro da empresa e contámos com mais de 500 pessoas”.

Madalda reconhece que nunca tinha pensado que esta podia ser uma saída profissional, mas está “muito satisfeita”. Diz que os antigos colegas com quem mais se relacionava “estão todos empregados e com projectos bastante interessantes”. Para ela, o curso de Serviço Social “é uma ferramenta para se poder aprender a fazer o bem bem feito, algo que é uma mais valia muito grande”.

Este foi o destaque do programa “Principio e Fim” do último domingo, na Renascença, em antecipação do Dia Mundial do Serviço Social, que se assinala esta terça-feira com o tema “Promover a dignidade e o valor das pessoas”.

Ângela Roque | Renascença

Fonte | http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=1&did=181553

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