Prostituição. "No telemóvel delas sou a Joana Camisinhas'"
Ser voluntário na Existências é entregar preservativos, fazer testes de HIV, mas sobretudo ouvir histórias das mulheres que têm a Estrada do Luso, Coimbra, como local de trabalho
A saída está marcada para as 11 horas. Seguimos num carro descaracterizado e que nos leva ao longo da Nacional 234, mais conhecida por Estrada do Luso. Do centro de Coimbra até à zona de Mangualde, Maria Lobo não deixa passar o ponteiro acima dos 50 km/h, abrandando sempre que avista alguém à beira da estrada. “O contacto no contexto de rua não é complicado, o mais difícil é mesmo levá-las até ao nosso gabinete”, conta a vice-presidente da Existências, uma associação de solidariedade vocacionada para o apoio a prostitutas. “Não temos como objectivo tirá-las da rua, damos sim apoio ligado à saúde”, explica a psicóloga enquanto abre a mala do carro para nos mostrar os caixotes cheios de preservativos e gel lubrificante. Para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, fazem também testes rápidos de HIV e, mais recentemente, estão inseridos no programa de troca de seringas.
Explicado o trabalho, ajustadas as equipas – normalmente compostas por psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais – parámos quando vemos Lurdes, encolhida de frio num casaco de pêlo castanho. Dos 57 anos de idade, 17 foram passados à beira da estrada. “Ganhei um problema de pulmões e nunca mais consegui mexer em detergentes. Tive de deixar o trabalho na casa das senhoras”, diz, referindo-se aos anos que trabalhou como empregada doméstica. Viúva e longe dos filhos, garante que eles nunca souberam o que faz, mesmo nos tempos em que o fazia ainda casada. “O meu marido metia-se na droga, queria lá ele saber de onde vinha o dinheiro”, confessa. Enquanto fala connosco, os olhos não saem da estrada, sempre a tentar decifrar as caras de quem passa. “Já perdi ali um cliente”, apontando para um carro cinzento que passou sem parar. Do caixote da associação leva 30 preservativos e 20 embalagens de gel. “Muitos clientes não querem usar, sabe? Mas eu ponho na mesma, caso contrário não há nada para ninguém”, avisa.
Ao longo dos 15 quilómetros de estrada que fazem parte do percurso diurno da associação, cada mulher ocupa um lugar específico e raramente o trocam entre elas. Maria Lobo já os sabe de cor e pára o carro junto a um saco térmico, um balde a servir de banco, um guarda–chuva e uns casacos. “Este é o posto da Júlia. Vamos esperar, que deve ter saído com um cliente.” Cinco minutos depois chega, de mala a tiracolo. “Já fui assaltada duas vezes aqui, agora só trago três coisas cá dentro: a minha escova, preservativos e dodots.” Esqueceu-se de mencionar o telemóvel, que toca pelo menos duas vezes enquanto conversamos. “É o meu Filipe”, referindo-se a um dos seis filhos, que saiu da prisão o mês passado. “O meu mais velho, o Paulo, ainda fica preso mais um ano. Mas quando ele sair saio eu da rua também”, garante. Com 49 anos, cinco deles a trabalhar na rua, Júlia lembra-se “como se fosse hoje” do primeiro dia na Estrada do Luso. “Chorei sempre. O meu primeiro cliente, que se mantém até hoje, até me deu uma nota de 20 euros e deixou-me ir sem fazermos nada”, lembra, entre risos nervosos. “Ainda me custa muito. Antes queria ir limpar casas como antes, mas os 400 euros por mês não me chegam para ajudar os meus filhos.”
O lucro depende da hora do dia, do tempo e até da crise. “Levo 20 euros no Verão e 15 no Inverno, tive de me adaptar”, explica Júlia, valores que chegam a um total que varia entre 1500 e 2 mil euros por mês. Se deixássemos, Paula ficava a falar o resto do dia, até porque de preservativos está abastecida. “Não preciso. Os meus clientes agora trazem a mais e eu guardo para usar com os outros.”
Durante a meia hora que estamos com Júlia as histórias atropelam-se: as boas notas da neta na escola, as notícias que saíram nos jornais sobre a tentativa de fuga da prisão do filho, mas deixa para o fim a dica para a nossa próxima paragem: “A minha filha Sandra está ali no fundo da estrada.” Arregalamos os olhos de surpresa, mas Júlia é rápida a explicar. “Vive sozinha com duas filhas, é preferível fazer isto a roubar”, conta, lembrando o dia em que os homens que paravam no seu posto a avisaram da presença de uma mulher nova na estrada. “Fomos todas juntas ver quem era. Quando cheguei e vi a minha Sandra baixei os olhos e virei costas. Mas tem de ser, uma pessoa habitua-se”, diz com um encolher de ombros. As duas já chegaram a trabalhar lado a lado, mas hoje, depois de muitas desavenças, Sandra afirma que olha para a mãe como uma colega de trabalho. “Já não consigo olhar para ela como minha mãe.” Em palavras diz aquilo que os gestos já denunciam: “Sou muito independente, na minha vida ninguém manda.” Dos quatro filhos, só tem duas a seu cargo, que acham que a mãe trabalha no Intermarché. “Enquanto puder esconder-lhes o que faço, vou esconder”, referindo, no entanto, que à mais velha os colegas já disseram “que a mãe é puta”. “Ninguém me diga que anda aqui por gosto. A mim custa-me todos os dias. Mas antes de começar respiro fundo e penso nas minhas filhas. É o que me dá força para voltar”, todos os dias, inclusive fins-de-semana.
O facto de ter a mãe a trabalhar na mesma estrada não lhe trouxe uma melhor relação com as amigas da rua. Corrige- -me rapidamente: “São colegas, no mundo da prostituição não há amigas.” Com 29 anos, é das mais novas da concorrência e por isso uma das mais solicitadas. “Ninguém gosta de ficar sem clientes, mas é como eu digo, a estrada não é delas, é do Estado.” Na hora de pedir material à equipa da Existências leva uma caixa de preservativos. “E gel, precisas?”, mas Sandra não baixa a guarda. “Já sabes que eu não faço dessas coisas, nunca precisei de gel, não era agora que ia precisar.”
EXISTÊNCIAS
Lurdes, Júlia e Sandra (nomes fictícios) são três das 14 prostitutas – sete portuguesas e sete romenas – que ocupam a Estrada do Luso enquanto há luz do dia. A esta zona, a ronda só chega uma vez de quinze em quinze dias, mas as da noite, nas ruas mais centrais de Coimbra, acontecem três vezes por semana. O trabalho junto das prostitutas insere-se no projecto Adão e Eva da Existências, que tem como objectivo a redução das taxas de HIV e doenças sexualmente transmissíveis entre essas mulheres. Além das rondas, a equipa de psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais está presente nos gabinetes que servem de sede à associação, para a realização de testes de HIV, aconselhamento psicológico e acompanhamento para hospitais, quando necessário.
Criada há dez anos, 2007 e 2008 foi o ano com mais voluntários inscritos na associação, com cerca de dez pessoas a ajudar nas rondas. Actualmente não têm nenhum voluntário no activo, apenas alguns contactos de interessados. “Este trabalho requer algum compromisso e nem sempre isso acontece, além de que não podemos ter muita gente nas rondas, para preservar a privacidade das utentes”, refere Maria Lobo. A psicóloga começou como voluntária na associação e é actualmente a pessoa que lá está há mais tempo. “Aos 21 anos, quando comecei, todas as histórias me impressionavam, mas tive de aprender a relativizar”, explica.
Além de apoio dado no gabinete e nas rondas de rua, a Existências visita mulheres que se prostituem em casa. Para isso, Joana Varandas tem um sistema simples: abre as páginas dos jornais à procura de anúncios, liga, aponta a morada e começa as visitas. “Agora já conheço os apartamentos todos na zona de Coimbra e Figueira da Foz, mas nunca sei quem vou encontrar, porque elas têm um sistema rotativo entre casas”, explica. A assistente social garante que entrar em casa das pessoas proporciona uma relação mais próxima e garante que, se há uns anos a maioria das mulheres eram brasileiras, actualmente existem cada vez mais portuguesas. “É um mundo muito tentador”, garante, lembrando o caso de uma brasileira “de 20 e poucos anos que nem sabia pôr um preservativo” e que lhe disse que só se ia prostituir um mês para pagar umas contas. “Em 30 dias disse-me que fez 15 mil euros. Claro que ainda hoje se prostitui”, conta Joana.
Antes de sairmos, Joana aponta para o documento em que está a trabalhar. “Contactei com uma mulher que está ilegal e não tem dinheiro nem para comer. Estou a tentar encaminhá-la para a Cruz Vermelha.” A assistente social, como Maria nos tinha dito, garante que as histórias já não a impressionam como no início e, quando isso acontece, lembra-se da gratificação que sente em ajudar. “É bom entrar num apartamento e ver o nosso contacto na porta do frigorífico”, conta, lembrando, entre risos, “já sei que no telemóvel delas sou a Joana Camisinhas ou a Joana Sida.”
Marta Cerqueira| Ionline
Fonte| http://www.ionline.pt/artigos/portugal/prostituicao-no-telemovel-delas-sou-joana-camisinhas/pag/-1
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