‘O poder do indivíduo é o poder do grupo’
É representante do maior grupo de Teatro do Oprimido do mundo, o Movimento Jana Sanskriti, que tem promovido a defesa dos direitos humanos em aldeias de 12 Estados indianos.
No Porto, durante o MEXE, Encontro de Arte e Comunidade (organizado pela PELE), Sanjoy Ganguly construiu uma peça de Teatro Fórum, na qual muitos dos participantes eram pessoas desfavorecidas.
Fez parte de um movimento marxista, de que se desligou ao perceber que lhe pediam apenas para ouvir e não pensar…
Era como uma religião, sem qualquer tipo de debate. Tínhamos de obedecer e acreditar. Então, resolvi promover organizações independentes. Quando comecei a trabalhar em aldeias, e vi o teatro tradicional, algo mudou. Em Calcutá, eu era mais um espectador, no escuro, as estrelas eram os atores, havia uma hierarquia. Estava habituado a simpatizar com uma das personagens da peça, que subscrevesse as minhas ideias.
Mas, no teatro tradicional, as personagens apareciam com vícios e virtudes e a relação entre o espectador e os atores era muito democrática. O principal objetivo era a crítica social, e correspondia exatamente ao que queríamos: criar massa crítica. Formei o primeiro grupo nessas aldeias e, de 1985 até 1990, fazíamos teatro de propaganda, sugeríamos soluções, ensinávamos. Na interação diária com os aldeões, percebi que os chamados iletrados eram pessoas que sabiam muito, mas não conseguiam articular bem esse conhecimento.
Chegou a conhecer o Augusto Boal [dramaturgo e encenador brasileiro, fundador do Teatro do Oprimido]?
Em 1991, trocámos algumas cartas e ele quis conhecer-me. Fui a Paris, com o meu grupo, representar, e ficou apaixonado pelo nosso trabalho. Percebi que tínhamos muito em comum. O Teatro do Oprimido não era algo estranho à Índia, já estava lá, colocando o ser humano no centro das atenções. Certo é que o movimento Jana Sanskriti desenvolveu e aprofundou os seus métodos e filosofias e, hoje, é estudado mundialmente.
Como funciona o vosso método?
Os atores começam por representar uma situação de conflito entre oprimidos e opressores, uma cena de violência doméstica, por exemplo. Depois, pedimos aos espectadores para subirem ao palco e há uma nova representação, em que mostram, e debatem, como gostariam de resolver o problema. Através deste debate, aproximamos as pessoas. Quando um espectador sobe ao palco, está a aprofundar a compreensão dos seus próprios problemas. Não se acaba com a violência doméstica, que perdura há séculos, em duas ou três sessões de teatro. Mas se falarmos consistentemente e continuamente nos problemas, as pessoas levantam questões e há um efeito prático.
Consegue ver mudanças nas comunidades onde trabalha há 28 anos?
Houve muitas mudanças. Por exemplo, em 1985, nenhuma mulher estava autorizada a sair da cozinha. No teatro, eram os homens que faziam de mulheres. Agora, muitos dos participantes do Jana Sanskriti são mulheres, donas de casa, que ocupam mais posições de liderança e partilham os seus problemas.
Como são recebidos na Europa?
A classe média europeia está fechada atrás de uma cortina invisível de individualismo. A alienação e o isolamento estão muito presentes, as pessoas não partilham os seus problemas, porque só se veem como indivíduos. Eu procuro quebrar essas barreiras e criar uma ligação, porque o poder do indivíduo é o poder do grupo. Às vezes, antes de se fazer teatro dentro de uma comunidade, temos de construir essa comunidade. As ferramentas do Teatro do Oprimido são tão úteis aqui como na Índia.
Visão Solidária
Fonte| http://visao.sapo.pt/o-poder-do-individuo-e-o-poder-do-grupo=f760874#ixzz2vstjwlkZ
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