O Euro não nasce em Flor!

 O Euro não nasce em Flor!

Hoje transportei-me para outra pessoa: sou a Amélia e tenho 53 anos. Como me defino? Podia dizer que até sou jeitosa mas o que sou mesmo é uma desempregada, desalojada e desorientada. Despediram-me há 3 anos, desalojei-me há 1 ano e sou desorientada há…não interessa. Fui inscrever-me ao Centro de Emprego. O técnico de lá é simpático. O Estado dá-lhe um salário para que me ajude a encontrar um emprego, mas há 3 anos que só lhe resta dizer-me que não há emprego! Antes, quando tinha casa e podia comer lá, ia buscar as refeições às cantinas sociais.

Parece que o Estado gastou uns bons milhões para que existissem as cantinas, onde uns funcionários escolhem e confeccionam a minha comida. Agora que vivo na rua, vou comer a uma instituição. Há uma assistente social que tem o seu emprego lá e que me faz uns atendimentos e me tenta ajuda. De outra forma, tenta inserir-me na sociedade. Todas as segundas vou ver a ementa da semana para ver o que vou comer durante toda a semana. Talvez tenha a sorte de comer um dos meus pratos favoritos. Todo aquele gás, aquela luz, aqueles funcionários, aquela comida, aquela água, aqueles telefones, aqueles materiais, devem custar uma pipa de massa…mas com sorte, talvez o jantar do dia de hoje valha mesmo a pena. Também vou buscar comida às carrinhas das equipas de rua. Fartam-se de andar de um lado para o outro. O que não deve ficar em gasolina, mas vá lá, há muito não comia uma bola de berlim! Entretanto, com tanto tempo ganho pelo desemprego e perdido pelo excesso dele, comecei a desbaratar. Sabem essas coisas, das depressões e oscilações de humor e falta de motivação (ou de motivos para que a tenha?) e lá me mandaram para um psiquiatra, pago pelo Estado que me encaminhou para a assistente social do hospital paga pelo Estado para que me ajudasse nem que fosse a tirar um curso e a arranjar um quartito que isto de andar a dizer aos doentes que têm de tomar a medicação certinha para aguentar o frio da noite, não está previsto nas bulas dos fármacos, aliás fármacos, entretanto gratuitamente cedidos por outra simpática assistente social da junta de freguesia da minha zona que tem um projecto que se chama qualquer coisa solidário. Aliás acho que neste meu estado de vulnerabilidade sou como uma espécie de criança, filha de duas palavras que se casaram há algum tempo e que se chamam crise e solidariedade. Casamento sólido, este! Eu é que nesta dependência toda, já vi que nunca mais deixo a “casa” do papá e da mamã. Quando me sinto “suja” nesta vida já escrita por tantos senhores doutores, resta-me ir tomar um banho aos balneários públicos. Lá, já está uma roupa que alguém solidário doou. Gostava tanto de blusas às flores. Era assim que ia vestida para o escritório onde trabalhava. Eu era muito alegre sabem? As flores eram um prolongamento desse cheiro da vida que agarrei como se fosse um jardim. A funcionária, paga para vigiar os balneários, dá-me umas calças à boca-de-sino e uma camisola de xadrez. “Vista que é quentinho”. Eu faço um sorriso. Compaixão, é o que sinto quando me falam em inhos. Ainda desfolho uns jornais. Parece que a Comunidade Europeia vai gastar uns brutos de uns milhões com os pobres (quadro comunitário 2014-2020). Ou melhor, para pagar aos funcionários e instituições que vão ser os gestores da minha pobreza. O Estado gasta tanto, mas tanto dinheiro comigo!!!! A pobreza nunca teve tanto euro! Esses senhores do Estado mais os que acreditam neles e nesta estranha forma de estar estavam mesmo a precisar que eu e os meus companheiros de rua e outros tantos desempregados e mais os desorientados, os ajudassem (fazíamo-lo de graça) a orientar-se e a ganhar cor naquelas bochechas. O meu sonho de hoje não é meu é o nosso sonho: que um dia (mas já agora), percebam que com apenas uma migalha do que já gastaram comigo, eu poderia ser dona da minha própria vida. É que eu só precisava de um pequeno jardim onde coubesse uma flor!

 

Joana Nogueira

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