Diversidade e competências específicas

Hélia Bracons

É Professora Auxiliar no Instituto de Serviço Social da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Licenciada, Mestre e Doutora em Serviço Social. Diretora da Licenciatura e coordenadora conjunta dos Estágios em Serviço Social da ULHT. É investigadora integrada no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra – CEIS20

Como ponto de partida para esta reflexão, cremos que é imprescindível considerar os elementos contextuais que afectam o desenvolvimento da intervenção social em sociedades multiculturais. São aspectos que requerem uma reflexão prévia para pensarmos o agir profissional.

É cada vez mais visível na nossa sociedade a presença de pessoas e grupos com culturas e religiões diferentes, que por vezes são alvo de atitudes discriminatórias e de exclusão, por parte dos cidadãos e também pelos profissionais, que desconhecem e não compreendem as especificidades culturais, sociais e religiosas destes.

Torna-se emergente reflectir sobre a importância e a necessidade de competências específicas, nomeadamente competências culturais junto de pessoas, grupos e comunidades com características étnicas, culturais, religiosas, sociais, entre outros, e contribuir para uma prática mais reflexiva, relacional e interventiva.

Consideramos que esta reflexão é apenas o início de um percurso que se revela desafiante, mas também motivador e de permanente descoberta.

 

  1. A abordagem intercultural

A cultura designa e determina os modos de pensar, de sentir, de perceber, de comunicar, de agir e produzir num dado grupo. Compõe-se de um certo numero de códigos, símbolos, mitos, crenças e valores que lhe conferem uma morfologia especifica. E o conjunto destes elementos constitui um quadro, um programa que formaliza a nossa relação connosco próprios, com os outros e com o mundo exterior.

Toda a cultura constitui um horizonte de compreensão e interpretação das coisas da vida. É uma programação coletiva (Hall e Hofstede) do espírito humano através de matrizes de reflexão e comportamento dotados de uma lógica própria.

É o resultado do processo de socialização (integração social), um processo moroso, violento e gerador de suspeições face ao outro.

O mundo contemporâneo, as mobilidades e as novas formas de comunicação fizeram expandir o universo das subculturas ou culturas especificas e o sentido da diferença. Em simultâneo e em contradição com uma tolerância e uma homogeneização comportamental, material e não tanto, mental politicamente correto).

O projeto da interculturalidade (não esqueçamos quer a multiculturalidade é uma realidade, a interculturalidade é um projeto), visa justamente a compreensão mutua das várias culturas que poderemos também designar por empatia cultural.

Uma empatia cultural que se desdobra em empatia conceptual e empatia comportamental, ambas geradoras de uma intimidade neural e que só pode ser obtida pela aquisição de competências culturais.

 

  1. Interculturalidade e competências específicas

A proximidade entre pessoas de várias orientações e proveniências, são traços fundamentais para compreender, hoje, o nosso tempo. Portugal é, de forma cada vez mais visível, um lugar de encontro, onde vivem e cruzam-se pessoas com uma grande variedade de percursos e de identidades, que falam línguas variadas, têm hábitos, gostos e concepções de vida e do mundo diferentes.

No País encontram-se comunidades distintas, algumas tradicionais (as de pertença nacional, regional ou local) outras de visibilidade recente (as de orientação).

Portugal vive esta realidade de forma intensa, a que acrescem as contribuições culturais trazidas por cidadãos nacionais emigrados por longos períodos em diferentes países estrangeiros e que, regressando ao país, nele exercem algum grau de influência (Rocha – Trindade, 1993).

A diversidade cultural é fonte de distinção, de diferença, mas é de igual modo, fonte de enriquecimento mútuo, se se admite que o que diferencia uns de outros é base de partida para a construção de um mundo pluricultural (Bracons, 2018: 31).  A maioria das sociedades do mundo são sociedades plurais.

Por sociedades plurais deve entender-se a existência de grupos sociológicos e dotados de coesão cultural que podem reclamar objetivos culturais, económicos e políticos com base nessa identidade de grupo (Moreira, 1996: 15).

O aumento de diferentes presenças culturais a que se assiste em Portugal é, todavia, um fenómeno comum aos países da Europa Ocidental. A razão é bem conhecida: a Europa, não obstante os problemas económicos que possa atravessar, constitui uma atracção para muitos que nos seus países de origem (África, América do Sul, Ásia) não conseguem aceder a níveis de vida desejados.

Contudo, o aumento de diferentes presenças culturais, tem conduzido de forma negativa em toda a Europa a um aumento da discriminação de minorias étnicas e culturais. Esta atitude traduz-se em comportamentos e actos discriminatórios individuais, colectivos e até mesmo institucionais, tanto nos países tradicionalmente receptores de imigrantes (França, Alemanha, Holanda e Reino Unido) como nos países que começaram, há poucas décadas, a receber fluxos migratórios (Itália, Espanha e Portugal). Porém, a discriminação de minorias nem sempre se fez da mesma forma.

Seabra (1999) salienta que a própria tensão vivida pelas minorias étnicas entre integração e exclusão, encerra contradições que reflectem as da própria comunidade autóctone face a elas, pois esta deseja a integração daquelas, mas simultaneamente reage, subalternizando-as e confinando-as, por exemplo, à ocupação de determinado espaço.

Toda esta problemática espelha-se na acção dos profissionais de Serviço Social que trabalham com pessoas com especificidades culturais distintas, que precisam de saber comunicar e entender como estas pessoas vivem e experienciam o mundo e a sociedade de acolhimento, nas diversas modalidades da acção profissional (ajuda, apoio, informações sobre direitos, etc.),

Este saber – aprender a reconhecer e interpretar culturas e ambientes específicos e diferentes – constitui o que chamamos de competência cultural e que é fundamental para o profissional. A principal conclusão do trabalho de Schuldberg (2005) diz que a competência cultural tem a ver com a forma como o profissional pergunta, vê, ouve e respeita os outros. Este olhar para com os outros implica respeito, dignidade e requer uma relação e uma comunicação positiva. Para tal, é necessário um profissional culturalmente competente.

No que diz respeito ao Serviço Social, Leigh (1998) refere que o Assistente Social culturalmente competente tem de saber e tem de adquirir técnicas de comunicação com o outro, promovendo o respeito e uma relação positiva para assim fazer uma avaliação culturalmente congruente e definir um plano de acção eficaz.

Num mundo cada vez mais globalizado, em que a interculturalidade é um desafio presente e permanente na prática do Serviço Social, este tem que dar ênfase à importância da competência cultural a ter na comunicação, no contacto, na proximidade e na intervenção com os sujeitos, que se apresentam aos nossos olhos como diferentes, quer do Assistente Social, quer das estruturas organizacionais onde está inserido.

A falta de competência cultural no trabalho do assistente social pode dificultar aos profissionais a capacidade para defender, ajudar e apoiar as pessoas e as comunidades com que trabalham.

A competência cultural é, pois, uma capacidade indispensável para a relação a criar com as pessoas de diferentes orientações culturais por forma a facilitar o diálogo, com respeito e conhecimento da realidade cultural, de modo a que a acção dos Assistentes Sociais seja efectuada com maior sucesso e eficácia. Ou como propõe Kupka (2008: 23), é “o conjunto de capacidades que permite a membros de diferentes orientações culturais estarem conscientes das suas identidades e diferenças culturais e interagirem eficaz e adequadamente entre si em contextos diversos”.

Por sua vez, segundo Bennett é “um conjunto de capacidades e características cognitivas, afectivas e comportamentais individualmente situadas que suportam uma interacção eficaz e apropriada numa diversidade de contextos culturais” (2008: 97).

A competência cultural é suposta, portanto, promover: uma atitude de motivação, a descoberta de conhecimento do mapa cultural próprio e do outro, a avaliação do desafio implicado no esforço de adaptação mútuo, o desenvolvimento de capacidades de interacção eficaz e adequada em contextos diferenciados.

A competência cultural exige igualmente o desenvolvimento de capacidades de interacção, as quais não se esgotam na diminuição de preconceitos, facilitada pelo contacto cultural em si. A empatia e a inteligência emocional, assim como capacidades como mentoring, coaching, aprendizagem transformadora ou sentido de negociação, têm-se revelado decisivas para a competência cultural.

Todos os discursos sobre competência cultural fazem referência à necessária empatia pela alteridade e ao enriquecimento obtido pela diversidade.

Convém, porém, começar por dizer que as relações culturais podem ser difíceis porque implicam processos muito complexos.

Podem ser uma fonte de mal-entendidos devido a inúmeros preconceitos e podem pôr em causa os princípios mais básicos da tolerância.

Existem, de facto, muitos obstáculos que interferem nas relações culturais. São obstáculos de vária ordem, que afectam processos psíquicos no plano corporal, cognitivo e afectivo e que interferem nos processos evolutivos.

Ora, é justamente para nos ajudar a melhor gerir esta complexidade que se propõe desenvolver competências culturais, as quais visam melhorar o conhecimento da identidade própria e o conhecimento dos demais, além de melhorar a capacidade de gerir conflitos de valores.

Na base do desenvolvimento de competências culturais, as quais permitem situar a diferença no seio de problemáticas, estão três dimensões distintas:

1) descentramento; 2) descoberta do quadro de referência do outro; 3) negociação.

No que respeita ao descentramento, este implica um trabalho reflexivo sobre quem somos. O profissional deve estar preparado para que o utente lhe faça perguntas, implícitas ou explícitas, sobre questões que podem parecer surpreendentes, aberrantes ou meramente despropositadas.

Para tal, o profissional deve começar por examinar os seus quadros de referência, os que lhe servem para descodificar os elementos culturais do Outro que são o reflexo da sua identidade pessoal, cultural e social, mas também profissional e institucional.

No que respeita à descoberta do quadro de referência do Outro, é uma etapa possível quando se gera distância face às próprias referências. É uma atitude que se baseia no interesse pelo Outro – ainda que este nos possa desconcertar – e que facilitará o trabalho em comum. E é um exercício que exige capacidade de observação, capacidade de comunicação verbal e não verbal, vontade de compreender as diferenças e recursos afetivos que permitam dar valor ao Outro. Sem este exercício não poderá, afinal, haver uma verdadeira compreensão nem um verdadeiro reconhecimento.

Quanto, enfim, à negociação, trata-se de pôr em evidência capacidades para encontrar, pelo diálogo e o intercâmbio, um espaço de aproximação reciproca e de compromisso aceitável, um “entendimento de mínimos”, que permita uma cultura de encontro (Cohen-Emérique, 2011).

A interculturalidade cessa então de ser uma dimensão marginal do Serviço Social para se tornar o vector de aquisição de competências úteis em todas as situações que os profissionais sociais se deparam na sua atividade.

Bibliografia

Benett, J. M. (2008). “Transforming Training: Designing Programs for Culture Learning”, in M. Moodian, Contemporary Leadership and Intercultural Competence, Thousand Oaks: Sage, 95-110.

Cohen-Émérique, M. (2011). Pour une Approche Interculturelle en Travail Social, Paris: Presses de L`EHESP.

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