Clínica Frater. Um posto médico na retaguarda do SNS no Barreiro

Associação tem 40 médicos voluntários e assinala dez anos dia 29 com debate sobre o papel da sociedade civil na protecção dos mais carenciados

Nos últimos anos da carreira de quatro décadas em exclusividade no Hospital do Barreiro, José Augusto Gonçalves fazia 75 horas de trabalho semanal que deixavam pouco espaço para voluntariado. Mas fazia-o quando podia, respondendo à chamada da Clínica Frater, associação sem fins lucrativos que desta forma todas as semanas tem médicos a dar consultas gratuitas no n.o 203 da rua Miguel Bombarda no Barreiro. Em dez anos, são quase dois mil dias de consultas gratuitas de 23 especialidades, mais oferta do que muitos hospitais. Sempre que precisam de um especialista, telefonam a um dos 40 nomes incluídos na lista, que conta também com cerca de uma dúzia de chefes de serviço. “Acho que somos a única associação médica com esta representação e actividade”, explica o cirurgião, há um ano reformado e entretanto eleito vice-presidente da Frater.

A associação, que dizem ser única, faz dez anos no próximo dia 29. A razão para existir mantém-se, conta o médico: “Nascemos por haver a percepção de que somos um concelho com muitas carências e continuamos a ser, com mais desemprego e pobreza. O SNS apesar de ser dos melhores sistemas do mundo, não chega sobretudo fora da área curativa, no que diz respeito à prevenção e apoio a doentes crónicos.” Sobretudo em tempos de crise e perante as diferenças de rendimento entre pessoas, avisa José Augusto Gonçalves: “Há gente com necessidades desprotegidas e isso tem vindo a piorar.”

Apesar de localizada em Setúbal, a clínica recebe moradores de qualquer parte do país. Sobrevive das quotas de 50 cêntimos/mês de 330 sócios activos e funciona num apartamento emprestado. Na lista de valências, há também outros apoios de saúde como um banco de medicamentos criado com doações de particulares antes de, em 2012, o governo avançar com a iniciativa a nível nacional, apoiada pela indústria farmacêutica, de que hoje são parceiros. Fazem rastreios de hipertensão, mudança de pensos com ajuda de enfermagem, distribui-se roupa, canadianas e cadeiras de rodas usadas a quem precisa.

Se a multidisciplinaridade é o termo técnico que os médicos usam para explicar o sucesso, há uma componente de proximidade e desburocratização que diz mais a quem lá vai, mesmo que a associação seja apenas intermediária entre a população e os cuidados de saúde oficiais. Romeu Cordeiro e Joaquim Dias, de 64 e 66 anos, desfiam as maleitas, da saúde e da carteira, que os levam ali todas as segundas-feiras. Fazem os testes da tensão, da diabetes e “quando dá” levam medicamentos para aliviar a conta da farmácia.

Um tem médico de família, outro não, mas ali o atendimento é “sempre na hora”. “O problema do SNS não é dos médicos, é da organização”, defende Romeu: “A minha mulher é obesa e tem de ser operada aos joelhos. Mas para isso tem de perder 20 quilos e agora mandaram-na para uma consulta de nutrição. Quando é que vai ser? Daqui a anos, não faz sentido.” Ali, encontram uma palavra e muitas vezes a certeza de que não faz mal esperar ou pode haver alternativa, as dúvidas que não conseguem tirar tão facilmente no guiché do centro de saúde ou num consultório privado.

SOCIEDADE CIVIL Para assinalar o aniversário, a Frater está a organizar um seminário com o tema “sociedade civil e a crise.” José Augusto Gonçalves resume que, uma década depois e com poucos projectos semelhantes, o desafio é juntar parceiros e contribuir para dar uma resposta à população, usando a experiência de quem como ele esteve 44 anos ao serviço do SNS e tem por isso um grau de diferenciação que pode ser aproveitado. Numa década de história e debates, não faltam ideias, mas a maioria continua no papel.

Desde que o governo tomou posse que tentaram audições para mostrar a lista de projectos, que incluiria, por exemplo, uma residência para doentes que vão fazer tratamento oncológico no Centro Hospitalar do Barreiro. Até hoje não conseguiram. Em 2010, começaram a preparar-se para concorrer ao então anunciado financiamento a projectos nacionais na área da saúde pela Islândia, Liechtenstein e Noruega no âmbito do mecanismo EEA Grants (ver texto ao lado) mas, agora que as candidaturas abriram, as ideias não são elegíveis.

O plano mais avançado, já com projecto arquitectónico e terreno cedido pela câmara, era uma unidade de rastreios oncológicos junto ao hospital. Como esta área não será objecto de financiamento, vão tentar encontrar mecenas para avançar com a obra: “Talvez se começarmos em vez de continuar a adiar haja interesse em sermos parceiros”, desabafa o cirurgião. Um projecto na área do rastreio da obesidade e uma unidade de apoio a doentes com Alzheimer, para o qual em tempos houve a promessa do lado da autarquia de uma escola primária abandonada no concelho, são ideias com as quais estão a pensar concorrer ao financiamento estrangeiro.

Jorge Espírito Santo, oncologista no Hospital do Barreiro e voluntário da Frater, acredita que um dos pontos diferenciadores da associação é essa preocupação com a saúde tanto no lado de assistência como no de apoio social, que a fez posicionar-se como retaguarda do SNS. “No plano da cobertura de médico de família, o Barreiro está melhor mas as carências na população aumentaram e as dificuldades no acesso muitas vezes têm razões sociais como a falta de conhecimento.”

Para o médico, ter uma associação como parceira nos rastreios seria uma mais- -valia para a região. Mas acima de tudo acredita que manterem-se ao fim de dez anos tantos médicos empenhados num projecto de solidariedade é uma mensagem que tem de passar: “Uma das falácias mais vergonhosas posta a circular na opinião pública é que os médicos são um bando de seres que se movem apenas por interesses pessoais e dinheiro. Esta associação é uma prova de que isso é falso. Haverá médicos incompetentes e corruptos, mas muitos são capazes de se mobilizar.”

Marta F. Reis | Jornal iOnline

Fonte | http://www.ionline.pt/artigos/portugal/clinica-frater-posto-medico-na-retaguarda-sns-no-barreiro/pag/-1

Imagem | António Pedro Santos

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